Coronavírus: maior procura nos supermercados aumenta preço do leite e derivados

Para evitar problemas de abastecimento, setor produtivo cobra garantias do governo federal, principalmente quanto à logística

A maior procura pelos consumidores nos supermercados tem aumentado o preço do leite e de produtos derivados. Enquanto isso, o setor pede garantias para que a produção não sofra problemas, em especial logísticos, diante da pandemia de coronavírus.

De acordo com Válter Galan, sócio do MilkPoint Mercado, consultoria especializada no mercado leiteiro, alguns produtos do segmento, como queijo muçarela, leite em pó em lata ou sachê e, principalmente, o leite UHT, registraram maior procura na última semana. O litro de leite UHT, por exemplo, subiu quase R$ 0,60, chegando a R$ 3, em média, nas prateleiras.

Segundo o consultor, a redução do fluxo de pessoas nas ruas, em quarentena para evitar a propagação do vírus, reduziu a demanda pelo queijo muçarela para o comércio, como bares, restaurantes e pizzarias. Por outro lado, o movimento foi compensado pelo aumento da procura nos supermercados, onde o muçarela representa 30% da venda de queijos.

No geral, explica Galan, os lácteos não tiveram uma demanda excessiva porque são produtos de consumo a curto prazo.

“No caso da muçarela, a alta não foi maior porque não é possível estocar como o leite. O mesmo ocorre com o iogurt, já que o armazenamento é feito por uma ou no máximo duas semanas em casa”, diz o analista, citando que a manteiga é outro item que tem sido mais procurado neste período de quarentena.

Preços no campo

Outro fator para a elevação dos preços é a valorização do produto no campo. Em fevereiro, o preço do leite pago ao produtor foi de R$ 1,4175 por litro, alta de 3,6% na comparação com janeiro, segundo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP divulgado na semana passada. No ano, a valorização já soma 4,83%.

Entre os motivos para a elevação no valor, de acordo com o levantamento, estão o atraso das chuvas da primavera no Sudeste e no Centro-Oeste, a estiagem prolongada no Sul, a menor disponibilidade de milho, usado para ração animal, e o abate de matrizes, por conta do maior preço da carne.

Oscilação na indústria

A análise do Cepea apontou, ainda, que, entre 2 e 16 de março, os preços médios do UHT e da muçarela recebidos pelas indústrias em São Paulo tiveram alta acumulada de 2,1% e de 0,9%, respectivamente.

No entanto, as cotações do leite em pó caíram 2,5% da primeira para a segunda semana de março. “A grande dificuldade do setor está em conseguir, neste cenário de oferta restrita, fazer o repasse da alta da matéria-prima aos derivados”, cita a nota técnica.

Segundo Marcelo Martins, diretor-executivo da Viva Lácteos, entidade que reúne 39 dos principais fabricantes do país e soma 70% da produção do setor, o segmento tem acompanhado o ritmo da economia brasileira, com queda durante a crise iniciada ao final de 2014 e retomada da produção desde o último trimestre de 2019. 

A produção vinha em ascensão até 2014, quando chegou a 35 bilhões de litros. A partir de 2015, com o recuo de 3,55% no Produto Interno Bruto (PIB), o volume de leite caiu e só voltou a crescer em 2018, com 33,8 bilhões de litros. Ainda não há dados oficiais de 2019, mas a estimativa de analistas é de que a produção foi de 34,3 bilhões de litros, 500 milhões a mais do que no ano anterior.

No entanto, a preocupação com o impacto da paralisia adotada em decorrência do coronavírus cresce entre as empresas lácteas. Com a reversão na projeção de crescimento do país de elevação de 2,1% para uma estagnação ou queda de até 0,4%, o entendimento é que os consumidores tendem a diminuir a compra dos produtos.

Preocupação com logística

A exemplo dos produtores de grãos, a cadeia de lácteos teme ser prejudicada com a restrição da circulação de veículos durante a crise. A preocupação não é só com o deslocamento de mercadorias, mas também com o fornecimento de insumos, como combustíveis usados nos caminhões ou embalagens para os produtos.

Na sexta-feira (20/3), o presidente Jair Bolsonaro publicou um decreto definindo 35 atividades essenciais ao país, entre elas o fornecimento de combustíveis. O texto cita, ainda, “a disponibilização de insumos necessários ao funcionamento da cadeia produtiva”.

Mesmo assim, entidades do setor reiteram a necessidade de garantias à produção leiteira. Na segunda-feira (23/3), a Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite) pediu ao governo que se comprometa com a viabilidade da produção nas propriedades.

“Nos últimos dois dias, prefeitos de diversas cidades do país e governadores publicaram decretos obrigando o fechamento de fábricas, comércio e restrição de transporte, o que nos preocupou muito porque isso pode inviabilizar o funcionamento de nossa cadeia do leite”, afirmou a Abraleite.

“É muito importante a definição da essencialidade dos alimentos, com a garantia de que não haja interrupção da cadeia, para que os produtos cheguem ao consumidor”, ressalta Martins, da Viva Lácteos.

Fonte: Globo Rural

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