Com alta demanda no inverno, como ficará o cenário dos queijos na pandemia?

Como vem se desenhando o cenário dos queijos neste ano em tempos de pandemia?

Segundo Lutz Lima Viana Rodrigues, Diretor de Operações da Laticínios Davaca, o mercado vem mudando de forma muito rápida nas últimas três semanas, saindo de um mês de abril de vendas muito estagnadas. “A queda no volume de leite em todo o país, seja pela seca e geada no sul ou pela entressafra de Minas Gerais, Goiás e Nordeste é o principal fator de enxugamento para o mercado na segunda quinzena de maio, trazendo uma valorização também nos queijos. O primeiro choque negativo de demanda sofrido em abril devido ao fechamento dos pontos de venda – pizzarias, restaurantes industriais, catering de aéreas, hotéis, lanchonetes – e o enfraquecimento do mercado institucional, foi equilibrado agora por essa queda de volume e migração do leite para outros produtos via mercado spot”.

“Esse processo equiparou a rentabilidade dos três principais produtos, leite em pó integral, longa vida e queijos, trazendo melhores preços para a matéria-prima no campo e reconstituindo a condição competitiva das queijarias”.

Na mesma linha, Fábio Scarcelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ), destacou que em um primeiro momento, foi muito difícil administrar os efeitos da pandemia e as dificuldades foram enormes nos meses de março e abril quanto aos estoques, recebimento de leite e forte redução nas vendas. A paralisia da demanda foi muito sentida, especialmente por laticínios com produtos destinados ao food service. Altos estoques e vendas muito abaixo dos custos foram as tônicas.

“No momento, a indústria de queijo tem procurado adequar seus estoques e feito esforços para que não falte produtos nos pontos de venda, o que de fato vem ocorrendo. Não houve ruptura no fornecimento de uma maneira geral. O setor suportou, inclusive, grandes pressões de estoque no início da pandemia quando praticamente parou o consumo e as previsões de venda estavam muito obscuras. No curto prazo, com a entrada do inverno, a demanda deve se manter contida, mas presente. Fica a expectativa sobre com que velocidade ocorrerá efetivamente a flexibilização da quarentena nas diversas regiões do País, como a renda das famílias será recomposta e como o consumidor voltará aos seus hábitos de compra. Acreditamos que, neste ano, o consumo de queijos e também a produção nacional deverão ser menores do que em 2019”.

Ainda segundo ele, tradicionalmente com a chegada do outono e inverno a demanda por queijos é maior até porque há muitas promoções de inverno. Nesse ano, contudo, ele afirma que o aumento nos preços ocorrerá devido a forte valorização do leite, e queda da produção no campo, fatores que obrigarão as indústrias a repassar o respectivo aumento em algumas linhas de produtos.

De acordo com Lutz, a demanda de queijo no inverno será sustentada pelos repasses do auxílio emergencial do governo federal, o que, junto com as parcelas ainda correntes do seguro desemprego, mantém aceso o consumo dos bens de primeira necessidade das famílias brasileiras, aí inclusas as proteínas animais.

“Acreditamos em um mercado firme pelo menos nos próximos 90 dias devido à expectativa de aprofundamento da entressafra e da manutenção do auxílio emergencial, seja ela total ou parcial, e das demais políticas acertadas de renda mínima nesse período tão incerto. O único ponto de atenção é uma possível entrada de grandes volumes importados da Argentina e Uruguai, caso tenhamos uma dinâmica cambial desfavorável para o país”.

Para ele, caso o dólar recue novamente para patamares de R$ 4,50 – 4,70 poderemos assistir novamente uma invasão dos importados do Mercosul, de forma muito semelhante ao ocorrido em anos anteriores. “É preciso colocar no radar essa ameaça, pois a Covid-19 derrubou o consumo de lácteos destes dois países, gerando um saldo exportável considerável que será desovado no mercado em algum momento. O voo pode ser interrompido nesse cenário e novamente veríamos as políticas de transferência de renda do Brasil, efetivamente todo o esforço do gasto público do governo brasileiro, transferido sem cerimônia nenhuma para o produtor rural argentino e uruguaio. Nós já vimos esse filme antes”, afirma.

Fonte: Milkpoint

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