Mercado de leite e derivados – Março 2022

O ambiente político e econômico mundial está dominado pelo conflito bélico entre a Rússia e a Ucrânia. Estes dois países são importantes fornecedores mundiais de commodities agrícolas e energéticas. A Rússia responde por 12% da produção mundial de petróleo. A Ucrânia é o terceiro maior exportador mundial de milho, contribuindo com quase 15% da exportação deste produto. Os dois países também respondem por mais de 30% das exportações globais de trigo. Estes números mostram a importância destes países no mercado mundial de commodities.


Desde o início do conflito, no final de fevereiro de 2022, o petróleo subiu cerca de 30% no mercado internacional, o milho, 20%, a soja, 10%, todos com impactos diretos no custo de produção de leite e derivados. O leite em pó, integral e desnatado, aumentou cerca de 5%. Tais aumentos em tão curto espaço de tempo ilustram quão desafiador é o momento atual, que se soma à recuperação ainda em curso da pandemia de Covid 19 (Figura 1).

Mercado de Leite e Derivados


Neste cenário, o preço do leite no mercado internacional alcança os maiores patamares dos últimos 8 anos: O leite em pó integral está cotado em US$ 4.500/ tonelada. A oferta de leite nos principais mercados globais continua limitada e o aumento do custo de produção seguram o incremento da produção internacional.


A balança comercial brasileira de lácteos tem reagido ao aumento dos preços internacionais e ao câmbio ainda favorável ao comércio exterior brasileiro. As exportações acumuladas nos primeiros dois meses de 2022 somam US$ 36 milhões. Esta é uma cifra pequena, comparada com o valor da produção brasileira de lácteos, mas representa avanço de 152% sobre os US$ 14 milhões registrados nos primeiros dois meses de 2021. As importações, por sua vez, caíram 58% neste período, somando US$ 108 milhões. O déficit da balança de lácteos alcançou US$ 71 milhões, uma redução de mais de 70% sobre o acumulado nos primeiros dois meses de 2021.


Os preços de derivados lácteos no Brasil continuaram a aumentar no atacado durante o mês de fevereiro, sinalizando algum alívio para a indústria, que tem trabalhado com margens apertadas e capacidade ociosa. O preço ao produtor alcançou R$ 2,15 em fevereiro, um pequeno aumento sobre o mês anterior. O leite no mercado spot, no entanto, alcançou o maior valor em seis meses em Minas Gerais: R$ 2,54, sinalizando que há espaço para aumento do preço pago ao produtor.


Ainda que o produtor receba mais pelo valor do seu produto, suas margens também continuam estreitas, por conta do aumento do preço de importantes insumos para a produção do leite. Milho e soja registraram forte valorização devido a quebra da safra de Verão que ocorreu por conta de problemas meteorológicos em especial no sul brasileiro. Além disso, a demanda firme e a oferta apertada, por conta da Guerra, têm mantido o preço destas commodities em alta.


Do ponto de vista do consumidor a situação é de cautela. A renda média do brasileiro caiu e ainda não retornou aos patamares pré-pandemia. A nova realidade da guerra é um complicador adicional para a economia, por conta da inflação mundial que repercute também no Brasil. No entanto, alguns dados atenuam este cenário. Desde o início de 2022 a entrada de recursos estrangeiros para investimentos se intensificou no Brasil e o real se apreciou em mais de 10% no período, em relação o dólar. A bolsa de valores também se valorizou nas últimas semanas, antecipando a perspectiva de crescimento da economia nacional, cuja previsão acaba de ser revisada de 0,3% para 0,4% pelo Banco Central. É um crescimento tímido, mas o viés de alta é positivo. O programa governamental de ajuda às famílias de baixa renda, o Auxílio Brasil, também pode alavancar o consumo de lácteos. Investimentos contratados pelas concessões de rodovias, portos, aeroportos e ferrovias somam mais de R$ 1 trilhão e este é mais um fator que pode impulsionar a economia brasileira e o poder aquisitivo da população.


Por fim, é importante lembrar que março é o mês da mulher. Vale ressaltar a importância da mulher como impulsionadora do consumo de lácteos. Estudos da Embrapa Gado de Leite mostram que as mulheres consomem mais leite fluido e iogurte que os homens, respondendo por um consumo médio de lácteos anual 7% superior aos homens. Parabéns a todas as mulheres, em especial àquelas do agronegócio do leite!

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